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Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

Dinis Machado (1930 - 2008)

DR 

 

“Chegou uma esquadra”, disse Austin, “e aqueles a quem chamavam os camones invadiram a cidade, tingindo-a com a brancura das suas fardas. Meia dúzia deles enfiou pela rua acima, passou pelos Vai ou Racha, estes cuspiram para o chão em sinal de desprezo, o Zuca foi atrás deles de braço estendido, esfregando o dedo polegar no indicador, eh, camone, money, money, um camone atirou um monte de moedas ao ar e a miudagem lutou bravamente para apanhar o dinheiro”. “essas excursões a bairros desconhecidos desvendam mundos novos”, interrompeu Mister DeLuxe. “fiz duas ou três desse género e tirei excelentes fotografias”.Austin sorriu. “bem”, disse ele, “os camones continuaram a subir a rua, pararam junto ao Ângelo, que estava sentado no seu banco de madeira a experimentar a harmónica, um deles aproximou-se e disse girls, e fez com o braço o movimento respectivo, we want girls, o Ângelo disse girl é a tua mãezinha, estás a perceber ou precisas de explicador?, sim, a tua mãezinha, o camone riu-se para os outros, um deles avançou e fez uma espécie de passe à Fred Astaire, conta quem sabe, e de repente o Ângelo já tinha guardado os óculos e a harmónica no bolso, começou a despachar os camones, enfiou um pela loja de móveis do Ventura, outro foi cair numa das cadeiras da Barbearia Hollywood, exactamente em cima do Pimentel, que estava a ser escanhoado pelo Joaquim Navalhinhas, um terceiro mergulhou no tanque de roupa da Miquelina Fortes, outro ainda foi também remetido para a loja do Ventura, encontrou o primeiro no caminho, vinha de regresso, e estatelaram-se os dois numa cama de casal, o Ângelo com os pés, com as mãos, com a cabeça, vai disto, os camones enfiavam por tudo quanto era porta, positivamente distribuídos ao domicílio, o Zuca diria mais tarde que Ricardito entre Chamas e Bandidos, a sua fita número um, ao pé daquilo não era nada. A certa altura, com os camones, estoicos a irem e a virem, os Vai ou Racha começaram a subir a rua, meteram-se no vespeiro, foi o Pé de Cabra que disse chegou a hora, o Padeirinha ouviu a frase histórica e havia de transmiti-la mais tarde, nunca se chegou a saber a que hora se referia ele, também não se chegou a saber se tencionavam ajudar o Ângelo que de resto, segundo Molero, conta quem sabe, se havia alguma coisa de que ele precisasse não era com certeza de ajuda, ou ajudar os camones, ou apartá-los, simplesmente o Ângelo começou também a despachar os Vai ou Racha, o Gil Penteadinho deu duas voltas no ar e foi aterrar na carroça das couves do Hipólito, o Tonecas Arenas ficou sentado no primeiro andar do andaime de um prédio que estava a ser pintado, entornando uma lata de tinta cor de rosa sobre o príncipe-de-gales novo do Joca Farpelas , isto depois de passar pela banca de peixe do Zeca Trampa, espadanando carapaus e lulas por todos os lados, o sombrero, esse, voou e entrou pela janela do segundo andar da Dona Ermelinda, o Bexigas Doidas, que quase tinha sido atado pelo Ângelo a um camone, conta quem sabe que fez nó com o braço direito de um e a perna esquerda do outro, entrou com ele sem pedir licença pelo Ás de Espadas, Lda., levaram ambos consigo o Rufino, o Aranhiço, o Roque Sacristão e o Vovô Resmungas, que estavam a jogar à sueca, saíram todos um pouco à balda pela porta do fundo, acrescentados do Douglas Fazbancos e do Chico Dominó, que estavam ali a discutir o Sporting-Benfica do domingo anterior, o Pé de Cabra foi de cabeça contra a parede e até fez eco, abriram-me a cabeça, dizia ele, abriram-me a cabeça, o que, segundo Molero, devia ser por demais evidente, o Peito Rente foi chutado com efeito para a tipografia do Celestino , deu duas voltas lá dentro fazendo parar máquinas que estavam a trabalhar e pondo a funcionar máquinas que estavam paradas, alguém tinha espetado uma faca na barriga do Lucas Pireza, talvez um camone, de certeza que foi um camone, diria mais tarde o Zuca, os camones são uns naifistas do caneco, garantia ele, o Lucas Pireza segurava os intestinos com as mãos, falava baixinho para eles, parecia rezar, os camones iam e vinham, espartanos, segundo Molero, até à medula, a certa altura, numa ressaca, levaram com eles, pelo ar, o Metro e Meio, o Ângelo tinha-os juntado a todos num molhinho, enfeitou-os com o metro e meio, e vai disto, tudo pelo ar, rumo ao Marocas Papa-Milhas, que tinha uma motocicleta cheia de cromados, e a mania das curvas rápidas, já tinha atropelado três gatos e duas pessoas, ia a fazer uma bela curva naquele momento, foi contemplado com a colecção de camones coroada com o Metro e Meio, despistou-se, disse foda-se, foda-se, subiu o passeio, virou de pantanas o mostruário do Raúl Pechisbeque, choveram colares de vidro, pulseiras, broches e anéis, o Marocas continuou em prova descontrolado e tudo, devolveu para dentro de casa o berço que a Gertrudes tinha colocado à porta com o bébé, atravessou a rua aos ziguezagues, embateu na caixa da criação da Mafalda Capoeira e terminou a prova contra o balcão da carvoaria do Galego, lançando o pânico nos elementos do Grupo Excursionista Moscatel, que estavam a beber o meio litro da praxe, enquanto as pessoas assomavam alvoroçadamente às janelas, as mulheres gritavam, o bebé da Gertrudes, que era o melhor pulmão lá do bairro, berrava como nunca, o papagaio do Pimentel, que tinha caído do poleiro e dançava suspenso na correia de metal, esganiçava a sua expressão preferida, ó da guarda, ó da guarda, muitíssimo apropriada, segundo Molero, às circunstâncias, o Fox Terrier do Silva Farmacêutico filava um camone pelo fundilho das calças e fazia questão de não o largar, as galinhas da Mafalda Capoeira corriam espavoridas num cacarejar infernal e num dilúvio de penas, o burro do Hipólito zurrava, os gatos da dona Maria Bicharoco miavam e pulavam, o Alsácia do Tó Peneiras ladrava com aquela fúria só dele, camones entravam por aqui, ex- Malhoas saíam por acolá, às vezes dava certo, parecia que o Ângelo tinha controle sobre a confusão, à distância, o Zuca diria mais tarde que, tirando algumas partes cómicas que pareciam à Charlot, aquilo tinha sido uma coisa iglantónica, o Ângelo era igualzinho a um tal Lone Ranger, só lhe faltava a mascarilha”. Houve uma pausa. ”o rapaz assistiu a tudo isto dentro da mercearia do João Azeiteiro, atrás de um saco de feijão, atónito perante aquilo que Molero denomina o maior fogo de artifício de que há memória em matéria de pancadaria, a balbúrdia plena, o filme de trinta e uma partes em carne viva, o real que se sobrepõe ao mítico, sonhar é pouco, é entra rapaziada, é entrar, eis a maior zaragata de todos os tempos, resolvida numa só sessão e sem ser preciso comprar bilhete, sem cenários de cartão, sem trucagens, sem intervalo segue imediatamente, cabeças, pernas e braços indiscutivelmente partidos, a cara do Pé de Cabra tapada pelo sangue que lhe escorria da cabeça, o Lucas Pireza transportado para o hospital na carripana do Bigodes Piaçaba, os intestinos enfiados outra vez na barriga um pouco à pressa, os camones espalhados pela rua, as mulheres a trazerem bacias de água e toalhas para limpar os feridos, as acusações mútuas, ó camone porque é que não vais jogar à porrada para as tuas streets ? ...não foram os camones, foi o Ângelo, o Ângelo é que começou logo a enfardar, isto foi coisa dos Vai ou Racha, os Vai ou Racha e os camones juntos são a lepra e a diarreia, as lágrimas e os gemidos, Vovô Resmungas de bengala no ar a despontar à esquina ao colo do Roque Sacristão,a Mafalda capoeira a correr atrás das galinhas, o Zeca Trampa a procurar lulas e carapaus nas couves do Hipólito, o Metro e Meio a vomitar coisas de cores esquisitas, esverdeadas e lilases, o Celestino a dizer ao Peito Rente mas tu não podias foder o material a outro?, o Tonecas Arenas a pedir para o ajudarem a sair do andaime, o Joca Farpelas de casaco na mão a chamar de filho da puta para cima a toda a gente, o Gil Penteadinho à procura do dente de oiro, se virem um dente de oiro é meu, o Pimentel à porta da barbearia com meia barba por fazer e o guardanapo ao pescoço, a Gertrudes com o bebé ao colo, alternando, num tom de voz claramente diferenciado, o ó papão vai-te embora, deixa dormir o menino, com o cambada de malandros, cambada de malandros, o Raul Pechisbeque a recolher, de nariz no chão e no boné de um dos camones, pedrinhas coloridas, colares, broches e anéis, o Silva Farmacêutico a tentar tirar da boca do fox-terrier os fundilhos das calças do camone, os Moscatéis a perguntarem ao Marocas se a carvoaria era uma pista de corridas, o Marocas a coxear e a dizer foda-se, foda-se, não mexam na mota, não mexam na mota, o Tó Peneiras rua abaixo em grande velocidade agarrado à trela do Alsácia que perseguia um dos gatos da Dona Maria Bicharoco, o Ventura dos móveis a explicar a um camone que a bed estava partida, o camone a contar com os dedos os galos que tinha na cabeça, o Zeferino Torrão de Alicante a dizer que desta vez ainda tinha sido melhor do que com os ciganos, o Chinês a dizer que sim com a cabeça, o carro da policia a chegar, o Joaquim Navalhinhas a perguntar mas o que é que a policia vem fazer agora?, vem contar os mortos?, o Ângelo a por os óculos e a desaparecer, o Zuca havia de dizer mais tarde, que ele desaparecera no ar como o Mandrake, a Dona Ermelinda a devolver o sombrero do Tonecas Arenas pela janela por onde tinha entrado, o sombrero a descrever uma curva larga, planando e caindo suavemente aos pés do Dick Tracy, que era o policia à paisana lá da área, e o Dick Tracy, segundo Molero, conta quem sabe, de sombrero na mão, a perguntar a toda a gente e a ninguém: o que é que se passou?, o que é que se passou?, o que é que se passou?..."

 

 

 
Boa tarde, Visitantes

 

 

Com este excerto de "O Que Diz Molero" (o qual, na minha opinião, é uma das mais divertidas descrições de uma cena de pancadaria que até hoje eu li), presto homenagem a Dinis Machado.

 

Devido à minha profissão, honro-me de conhecer pessoalmente vultos grados da nossa Cultura.

 

Dinis Machado era - é - um deles.

 

Altino do Tojal, autor de "Os Putos", disse-me uma vez (e eu nunca mais esqueci estas palavras, pois elas correspondiam à verdade) que Dinis Machado tinha a capacidade de, com a sua escrita, fazer-nos visualizar como um filme as cenas que ele descrevia. 

 

Enfim, o Homem partiu para se integrar no "Panteão Literário", a obra fica.

 

 

Tenham uma boa semana

 

Visitante

 

Sinto-me:
Música: "Words"
Terça-feira, 16 de Setembro de 2008

Rick Wright (1943-2008)

DR

 

DR 

 

 

A minha homenagem a um homem que "deu som" a um conjunto.

 

 

 

 

Richard Wright, teclista dos Pink Floyd, faleceu hoje aos 65 anos.

 

 

 

 

Vejam-no no imortal "Time"

 

 

 

 

 

 

Visitante

 
 
Sinto-me:
Música: "Time" (Pink Floyd)
Publicado por Visitante às 00:50
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Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

Pedro Bandeira Freire

 

DR - http://jpn.icicom.up.pt/

 

 

 

Talvez a face e o nome não vos digam grande coisa.

 

Mas vejamos o que se segue:

 

 

a) O  Cinema "Quarteto":

 

[Cinema+Quarteto] 

DR

 

 

b) A letra de uma das canções mais populares - e, para mim, das mais belas - do cantor Paco Bandeira: 

 

 

Minha 5ª Sinfonia


Quando me lembro quem eras,

Desse corpo que foi nosso,

Desse amor que não deu certo.


Era o tempo das quimeras,

Das palavras em silêncio,

Quando mais longe era perto.


Tinhas nos olhos a esperança,

Os desejos de aventura,

As ilusões que eram minhas.


Nos momentos de ternura,

Tinhas nos seios a graça,

Das primaveras que tinhas.


E foste a música que em mim ficou,

Quando a distância nos fez separar,

Ando louco para te encontrar.


Foste a “5ª Sinfonia”,

Fuga da nossa verdade,

Sonata tocada em mi.


Foste o meu sol afinado,

Neste samba de saudade,

Vinicius, Nara e Jobim.


Foste verso de balada,

Foste pintura abstracta,

Meu “Bolero de Ravel”.


Foste música sonhada,

Numa canção de “Sinatra”,

Com um poema de “Brel”


E foste a música que em mim ficou,

Quando a distância nos fez separar,

Ando morto para te encontrar.


Foste estrela de cinema,

Minha “Dama de Xangai”,

“Hiroshima meu amor”.


A minha “Grande ilusão”,

Eras “Fúria de viver”,

“Quanto mais quente melhor”.


“Grande amor da minha vida”,

“Senso, silêncio, paixão”

“Buñuel”, “Fellini”, “Truffaut”.


Foste “Luzes da ribalta”,

“Música no coração”,

“E tudo o vento levou”


E és ainda o que me faz sentir,

Dentro da vida p’ra te cantar,

Ando louco para te encontrar

... Para te encontrar ...

 

 

 

c) ... e a letra de outra canção igualmente bastante conhecida do cantor Paco Bandeira: 

 

 

TERNURA DOS 40

 

 

 

Quando penso o que passei,

Fronteiras de solidão,

Tinha para dar e não dei,

Olhei para mim e pensei,

Não tenho nada na mão.

 

Tive o tempo e não senti,

Tive amores e não amei,

Os amigos que perdi,

E as loucuras que vivi,

São tantas que já não sei.


Quem eu era?

Quem sou e quem pareço?

Se alguém hoje me espera,

Com certeza que mereço.


Mereço ainda,

Amor a tua presença,

Para enfrentar a vida

Com a ternura dos Quarenta.

 

Foram tantas as idades

Da vida que atrás deixei,

Não quero sentir saudades,

Vou em outras amizades,

Amar o que não amei.

 

Os copos que não bebi,

Os discos que não toquei,

Os poemas que não li,

Os filmes que nunca vi,

As canções que não cantei.

 

Meus amigos,

Importante é o sorriso,

Para seguir viagem,

Com a coragem, que é preciso.

 

Não adianta,

Deitar contas à vida,

A ternura dos quarenta

Não tem conta nem medida

 

Três obras - um cinema e duas letras -... entre muitas coisas mais.

 

Um nome: PEDRO BANDEIRA FREIRE.

 

Faleceu hoje.

 

Até um dia destes, Pedro. Descanse em paz.

 

 

Visitante

Música: "Minha Quinta Sinfonia"
Sinto-me:
Quarta-feira, 9 de Abril de 2008

O Desfecho era esperado...

DR

 

... mas nada apaga a dor de ver partir para sempre um entre querido.

 

Os meus sentidos pêsames pelo falecimento do teu irmão, Ventania.

 

Estou ausente de Lisboa, mas os meus pensamentos estão contigo.

 

Beijinho muito grande do teu amigo

Visitante

Música: "Adagio for Strings" (Samuel Barber)
Sinto-me: triste por uma amiga
tags: ,
Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2008

Luiz Pacheco (1925-2008)

"I did it my way"

(palavras conjuntas de Lucien Thibaut e Paul Anka, para a música de Claude François e Jacques Revaud, na voz de Frank Sinatra)

 

Luiz Pacheco

DR


Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de  carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na  boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem, compassadamente, silenciosamente, duma igual vivificante seiva.

(In "Comunidade")

 

 

Nos idos da década de 90, estava eu profundamente embrenhado no meu expediente no Contencioso da SPA, vejo, súbita e fragorosamente, cair-me na secretária um sapato de senhora cor-de-rosa.

 

Surpreendido por tão insólita visão, levanto o olhar da papelada e vejo à minha frente um homem alto e seco, olhando-me com a expressão trocista de quem acabou de pregar uma partida absolutamente inesperada.

 

Devolvi-lhe o olhar e ri-me com gosto da situação.

 

Aquilo só poderia ter sido feito por uma pessoa useira e vezeira em criar e protagonizar situações insólitas.

 

Aquilo só poderia ter sido feito por Luiz Pacheco.

 

 

 

Não vou escalpelizar mais nada deste escritor. Outros o fizeram e farão durante estes dias.

 

Que continuem a fazê-lo durante muitos anos. Afinal, este homem marcou diferença através da sua marginalidade.

 

Concorde-se ou não.

 

 

Até sempre, Sr. Luiz Pacheco.

Visitante

Sinto-me:
Música: "My Way" (Frank Sinatra)
Publicado por Visitante às 13:39
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